O crescimento dos cabelos e das unhas depende de vários fatores, entre eles genética, hormônios, estado nutricional e funcionamento adequado do organismo. E existe uma etapa fundamental nesse processo que nem sempre recebe a atenção necessária: a forma como o corpo aproveita os nutrientes que recebe pela alimentação e/ou suplementação.
Não basta consumir vitaminas, minerais, proteínas e outros nutrientes importantes. Eles precisam ser digeridos, absorvidos e disponibilizados para que o organismo possa utilizá-los na renovação e na formação dos tecidos.
É nesse contexto que a saúde intestinal ganha importância.
O intestino participa diretamente da absorção dos nutrientes e possui o que é conhecido como microbiota intestinal. Quando essa relação entre alimentação, microbiota e organismo está equilibrada, o intestino pode desempenhar adequadamente suas funções. Por outro lado, determinadas doenças intestinais e alterações da barreira intestinal podem prejudicar a absorção e favorecer deficiências nutricionais.
Mas como a alimentação influencia esse processo? E qual é a relação entre a saúde intestinal, o crescimento dos cabelos e a saúde das unhas?
1. A alimentação influencia a saúde intestinal
A qualidade da alimentação vai muito além da quantidade de calorias consumidas. A variedade de alimentos, a presença de fibras, a adequação de proteínas e micronutrientes e a frequência com que determinados produtos são consumidos também importam.
Um padrão alimentar com consumo frequente de refrigerantes, bebidas açucaradas, biscoitos recheados, salgadinhos, bolachinhas, embutidos, fast-food e outros alimentos ultraprocessados, associado à baixa ingestão de frutas, verduras, legumes, feijões e cereais integrais, pode oferecer menos fibras e uma composição nutricional bem menos favorável à saúde.
Esse padrão merece atenção porque a alimentação participa da regulação da microbiota intestinal e de suas funções. Estudos investigam como dietas com pouca variedade de fibras e elevado consumo de determinados produtos ultraprocessados podem influenciar a diversidade microbiana, a produção de metabólitos e a barreira que protege o intestino.
É importante, entretanto, entender que não existe um alimento isolado que determine a saúde intestinal. O que conta é o padrão alimentar habitual, o contexto clínico e a resposta individual.
Também não é correto afirmar que todo alimento ultraprocessado provoca inflamação intestinal ou que consumir açúcar ocasionalmente causa disbiose. A preocupação está principalmente na frequência, na quantidade e na composição geral da alimentação.
2. O que é a microbiota intestinal e por que ela importa?
A microbiota intestinal é o conjunto de microrganismos que vivem no intestino, incluindo bactérias, fungos e outros organismos. Eles participam de funções importantes, como a fermentação de fibras, a produção de ácidos graxos de cadeia curta e a interação com o sistema imunológico.
Costumamos ouvir falar em bactérias boas e ruins, mas essa divisão é uma simplificação. Existem microrganismos que exercem funções benéficas em determinadas condições, enquanto outros podem contribuir para doenças quando se multiplicam excessivamente ou quando a barreira e as defesas do organismo estão comprometidas.
Por exemplo, algumas espécies de Bifidobacterium e de Faecalibacterium estão associadas a funções relevantes para o ambiente intestinal. Certas bactérias produzem butirato, um ácido graxo de cadeia curta que serve como fonte de energia para células do cólon e participa da manutenção da barreira intestinal.
Isso não significa que exista uma única composição ideal de microbiota para todas as pessoas. A saúde intestinal depende da diversidade e das funções do ecossistema microbiano, de sua interação com o organismo e de outros fatores, incluindo alimentação, medicamentos e condições clínicas.
Quando há alterações desfavoráveis na composição ou no funcionamento dessa comunidade, usamos o termo disbiose. Ela pode estar associada a diferentes condições, mas não deve ser diagnosticada apenas pela presença de gases, constipação ou inchaço, nem interpretada automaticamente como causa de todos esses sintomas.
3. O que acontece quando a barreira intestinal é comprometida?
A parede intestinal não é apenas uma estrutura por onde os nutrientes passam. Ela também funciona como uma barreira seletiva: permite a absorção de substâncias necessárias ao organismo e ajuda a controlar o contato entre o conteúdo intestinal, os microrganismos e o sistema imunológico.
Em determinadas condições, a integridade ou a função dessa barreira pode ser prejudicada, aumentando a permeabilidade intestinal. Isso significa que algumas substâncias conseguem atravessar, favorecendo situações desfavoráveis para o nosso corpo.
O objetivo do cuidado nutricional não é simplesmente buscar um intestino que absorva o máximo possível, mas favorecer seu funcionamento adequado e identificar condições que possam comprometer a digestão, a absorção ou o estado nutricional.
4. E qual é a relação com o crescimento dos cabelos?
A formação de um fio exige, dentre outros itens, energia e disponibilidade de aminoácidos e outros nutrientes.
Entre os nutrientes que participam desses processos estão:
- Proteínas: fornecem aminoácidos utilizados na formação da queratina e de outras estruturas celulares.
- Ferro: participa de processos metabólicos importantes para a atividade celular.
- Zinco: contribui para a síntese de proteínas, a divisão celular e a manutenção dos tecidos.
- Vitaminas B12 e folato: participam da formação celular e de processos metabólicos essenciais.
- Outros micronutrientes: também têm funções importantes, embora a contribuição de cada um para o crescimento capilar dependa do contexto nutricional e clínico.
Quando a alimentação não fornece quantidades suficientes desses nutrientes, ou quando uma doença prejudica sua absorção, podem surgir deficiências capazes de comprometer o funcionamento normal dos tecidos.
Por isso, garantir uma ingestão adequada e investigar possíveis problemas de absorção são medidas relevantes para a saúde capilar.
A velocidade de crescimento também é influenciada por fatores genéticos, hormonais e pelo ciclo natural do folículo.
A proposta aqui, portanto, é mostrar a importância das condições nutricionais necessárias para que o cabelo cresça de forma saudável, e não prometer uma aceleração do crescimento por meio de uma intervenção intestinal específica.
5. E as unhas? Elas também dependem da disponibilidade de nutrientes
Assim como os cabelos, as unhas são estruturas queratinizadas e dependem da atividade das células responsáveis por sua formação.
A disponibilidade de proteínas, ferro, zinco e outros nutrientes contribui para a manutenção dos tecidos. Em situações de deficiência, a formação e a integridade das unhas podem ser prejudicadas.
O cuidado nutricional é importante, mas deve considerar o contexto individual. Suplementos não devem ser utilizados automaticamente, sobretudo porque o excesso de determinados nutrientes pode causar efeitos adversos.
6. Como favorecer a saúde intestinal e a disponibilidade de nutrientes?
O primeiro passo é construir uma alimentação variada, suficiente e adequada às necessidades individuais.
Frutas, verduras, legumes, feijões, aveia, cereais integrais, sementes e outras fontes de fibras fornecem substratos que podem ser utilizados por diferentes microrganismos intestinais.
Uma ingestão adequada de proteínas, fontes alimentares de ferro, zinco e vitaminas também ajuda a atender às necessidades do organismo. A distribuição das refeições, a hidratação e a regularidade dos hábitos podem ser ajustadas conforme a rotina e a tolerância de cada pessoa.
Em algumas situações, a suplementação é necessária. Isso pode ocorrer quando há deficiência identificada, necessidades aumentadas ou dificuldade de atingir as quantidades necessárias apenas com a alimentação. A escolha dos nutrientes e das doses deve considerar a avaliação individual.
Quando vale buscar avaliação médica
Sintomas persistentes ou sinais que possam sugerir uma doença intestinal merecem investigação:
- Anemia
- Deficiências nutricionais recorrentes
- Perda de peso involuntária
- Sintomas digestivos importantes
Não é necessário eliminar glúten, leite ou outros grupos alimentares sem indicação clínica. É preciso investigar, e é a partir daí que vamos saber do que o seu corpo precisa. Essas restrições feitas por conta própria podem reduzir a variedade alimentar e dificultar ainda mais a adequação nutricional. Da mesma forma, probióticos e outros suplementos destinados à microbiota não devem ser utilizados sem orientação, como se fossem o tratamento chave para sua questão intestinal.
7. Cuidar do intestino é cuidar das condições para o crescimento saudável
O crescimento dos cabelos e a formação de unhas saudáveis dependem de uma combinação de fatores. A alimentação fornece os nutrientes necessários, enquanto o sistema digestivo permite que eles sejam processados e absorvidos. O intestino também abriga uma microbiota que participa de funções metabólicas e imunológicas importantes.
Quando existe uma doença que compromete a absorção ou uma deficiência nutricional, identificar e tratar a causa pode fazer diferença para a saúde dos tecidos.
O caminho mais consistente é cuidar da alimentação, favorecer o funcionamento intestinal, avaliar as necessidades nutricionais e investigar possíveis alterações quando necessário.
Antes de qualquer intervenção
É importante compreender se o organismo está recebendo, absorvendo e utilizando aquilo de que precisa. Esse olhar individualizado ajuda a construir uma estratégia nutricional que favoreça a saúde como um todo, incluindo as condições necessárias para o crescimento saudável dos cabelos e a formação adequada das unhas.
Se você reconhece esses sinais no seu dia (queda de cabelo, unhas fracas que não crescem), vale investigar como está a absorção dos nutrientes antes de pensar em um suplemento novo. Isso faz parte do que eu avalio na consulta, junto com o resto da sua rotina alimentar.